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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ENXEBRISMO INTERNACIONAL

(vem do artigo anterior "Uma experiência pessoal")

Andando por Luxemburgo essa tarde conheci um grupo de jovens portugueses de Erasmus em alguma universidade de algum país do ambiente (não lembro qual), e botei a tarde com eles falando galego-português. Com eles descobri que algo de nós já vão conhecendo ("os galegos não querem ser espanhois, querem ser portugueses !!"), ou que um deles, um rapaz do Porto, dizia que em sua casa às vezes viam o Luar! !

Gayoso, Mucha e Nucha, no Luar. Fonte: www.girlskissingtube.com/mucha/

E dizia o rapaz do Porto "quando fala a gente jovem não ... mas a língua que falam os velhos da Galiza é português!"

Não seria a última coisa que me surpreendeu no Luxemburgo. Caminho do aeroporto tomei um táxi. No artigo anterior deixava no ar a pergunta de se o método que se aplica no ensino cuatrilíngüe de Luxemburgo funciona. Bem, o taxista falava luxemburguês, alemão, francês, inglês e italiano. O TAXISTA!! Mas se eu com os taxistas de Madri quase nem me entendia em espanhol! Curiosamente não falava essa língua que supostamente serve para andar pelo mundo adelante que se chama espanhol. "E português?" Disse, agora que sabia que ali fala-se muito. "Não, eu sou filho de italianos".


Ao retornar a Madrid decidi que não podia continuar assim. Apunteime nas aulas de francês que dava à empresa onde trabalhava, e perguntei por aulas de português. Curiosamente, havia pouco que tinham decidido dar aulas porque começava a haver demanda (por Brasil, sim, mas também por Portugal, onde as multinacionais espanholas estavam entrando, então, 'a trapo'). Mas primeiro tinha que fazer um teste de nível, para ver em que curso entrava ...

Línguas do Mundo. Fonte: www.tocknock.com


Fiz o teste de nível de português, que consiste de uma prova escrita e uma entrevista com o professor, que diante do meu sotaque português "de imitação" perguntava uma e outra vez que para o que eu queria estudar português, se já falava muito bem. " Pois, porque nunca o estudiei. estudei galego, mas não sei que há diferenças com o português escrito e oral e quero estudá ".

Quinze dias depois recebi uma chamada do professor, para darmo o resultado da prova:

- Mira, que te llamo para decirte que no tienes nivel para el curso de portugués.
- Cómo que no tengo nivel?? Pero si por hablar gallego ya podría entrar en un curso más avanzado!!
- No, si eso es lo que quiero decir. Que tienes ya un nivel superior a los que ofrece la empresa, no te puedo poner en clase con nadie.


I então eu pensei: "tantos anos aturando a ideologia nacionalista espanhola, dizendo que galego e português 'não são o mesmo, que el gallego no serve para nada ...', e agora que as multinacionais espanholas querem investir em Portugal ou Brasil, e precisam de diretores espanhóis que falam português, morreriam por ter um nível similar ao que tem um galego que nunca estudou português ".


Por isso agora, quando escuta a palestra do Ecolíngua 2009 'A Esperança da Lusofonia'


Ecolingua 2009: A esperanza da lusofonía from IGEA on Vimeo.


... não quero perder a ocasião de comentarvos a minhas experiências pessoais no Luxemburgo I, em Madrid, que me abriram os olhos sobre a utilidade do galego no mundo. Simplesmente, a mais de um hipócrita em Madrid (e por desgraça, em Galiza também, como demonstra cínico Jose Quiroga, presidente da Câmara de Comércio da Corunha) não lhes interessa reconhecê.


Da palestra do segundo professor, o brasileiro Carlos Faraco, destacar que poderemos verificar que a língua que fala é -como diz o representante da burguesia tardofranquista corunhesa-, praticamente ininteligíveis para um galego. Minha mãe, como se pode dizer que galego e brasileiro são línguas diferentes? Também destaca-se a menção que faz com que "como multinacionais espanholas Santander e Telefónica subvencionam o governo de Lula para que se ensina o espanhol nas escolas do Brasil". Claro, como acabamos de ver, os espanhóis aprender português demoram anos... apenas para falar o que um galego. Por isso preferem subsidiar os brasileiros para que sejam eles os que estudam espanhol.


Fica para o último uma das melhores palestras que ouvi neste Ecolíngua 2009: a do professor Fernando Venâncio. Depois de comentar algumas das coisas em comum que partilham em exclusivo galego e português (o infinitivo flexionado, a 'resposta em eco', etc.), ele di que o galego pode ser aproximado linguísticamente o português baseado na essência própria do galego, isto é, recuperando usos do galego que se estão a perder, mas que em português estão muito vivos.

Seria acometer para o galego o que ele denomina 'enxebrismo internacional':

- "Fazer um levantamento das formas comum i exclusivas de galego e português", algo que está começando a fazer o professor Venancio.
- "Tirar as frequências lexicais portuguesas. Por exemplo, usar menos 'cambiar, e máis mudar; menos 'empezar' e máis começar, menos 'quedar' e usar mais ficar. Tudo isso é galego".
- "Certas formas que, neste momento, são exclusivas do português e brasileiro, também fosem introduzidas no uso do galego, não porque elas sejam galegas hoje, mas porque são galeguísimas em sua conformação, na sua etimologia e conformação silábica".

"Seria um estimular do galego, dando-lhe uma envergadura internacional. Pesquisa para o galego um enxebrismo internacional. A elaboração dum dicionário contrastivo galego - português ajudaría muito também".

Termina afirmando o professor que já estamos demorando em introduzir algo que eiqui tem insistido mil vezes: o ensino em português, e os meios de comunicação, livros, revistas, etc., Portugueses na Galiza.

Oxalá não demore.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL

As novas tecnologias proporcionam uma informação que a minha memória já não estaria em condições de dar: foi um 15 de novembro de 2003.

Luxemburgo (Basée Ville desde Grund). Fonte própria.


Nesse dia Caralhadas acudiu ao Luxemburgo para participar da última fase de um processo de seleção de pessoal do European Investment Bank, EIB, instituição financeira da União Europeia criada em 1958 com o objetivo de apoiar os objectivos prioritários de integração e desenvolvimento das regiões mais desfavorecidas da união.

Éramos apenas 5 os candidatos selecionados para a última rodada, e como acontece nos filmes que desvelan o final desde o primeiro minuto não houve sorte. De ter conseguido o trabalho, provavelmente a minha vida teria mudado radicalmente, como funcionário da União Europeia.


Para fazer o currículo em inglês que enviei para participar do processo de seleção traducín o que tinha em espanhol de quando conseguin o trabalho que tinha na altura em Madrid. No original dizia que as minhas línguas maternas são galego e espanhol. "Como no EIB não vão ter idéia do que é o galego -pensei- pois não vou tirar uma língua do currículo: ponho que o português é minha língua materna, e arreando . Total, o trabalho a oferta é de gestor de fundos de rendimento fixo e monetários, o que caralho lhes importará no Luxemburgo se o que falo é português ou galego? "

Instalações centrais do EIB no Luxemburgo em 2003. Fonte: www.flickr.com


A entrevista inicial foi um 'bombardeio' de perguntas que me iam fazendo simultaneamente entre 3 ou 4 pessoas de EIB sobre assuntos acadêmicos, profissionais, etc. Qual seria a minha surpresa quando uma parte da entrevista centrou-se no meu português como língua materna:

- Uma das razões pelas quais você foi selecionado para a última rodada é a sua competência em línguas. O inglês é claro vai ser imprescindível no trabalho, mas no dia-a-dia não o vais usar muito. No Luxemburgo as línguas oficiais são francês, alemão e luxemburguês, pelo menos vais precisar o francês. Que nível você tem?.

- Bom ... estudiei dois anos no instituto... falar não falo muito ...

- Vais ter de estudar francês, porque vaiche fazer falta no dia-a-dia. Mas tem sorte, porque outra das línguas no seu CV é muito útil no Luxemburgo: também fala português língua materna, não? No Luxemburgo não é um idioma oficial, mas houve muito imigração há anos de pessoas de países de fala portuguesa, i é um idioma muito falado. Algum dos seus pais é português?


E aqui pensei "tragam terra, como lhe faço entender". Por um instante véuseme à cabeça as típicas conversas em Galiza com españolistos: "el gallego y el portugués no son lo mismo, eso lo decís los nacionalistas porque el gallego no vale para nada". Assim que traguei saliva, e comencei a explicar aos entrevistador que a Galiza é uma parte do Estado espanhol que, na Idade Média, falava a mesma língua que Portugal, e que por razões históricas, desde o século XVI ficou definitivamente integrado na Espanha, e as línguas tomaram caminhos diferentes.

- Na escrita-lhes disse-são muito parecidas, quase idênticas, na fala o português muda bastante.
- Mas eles entendem?
- Sim, sim, sem problema.
- Perfeito, então vai ser muito útil aqui.

I então, para minha surpresa, explicáronme que entendiam a situação perfeitamente porque no Luxemburgo passa uma coisa muito semelhante entre o luxemburguês eo alemão.

Luxemburgo. Catedral Notre Dame de Luxemburgo ao fundo. Fonte própria.


I então, o galeguinho o que lhe disseram que "cuando salgas de la aldea verás que el gallego no te sirve para nada", não só descobriu que não era verdade, mas duas coisas mais:

- Que onde a gente não está contaminada pelo discurso nacionalista espanhol aceita-se perfeitamente que duas línguas que não são idênticas mas sim muito próximas podem considerar-se uma mesma língua, quando para efeitos práticos são permitidos a dois falantes se comunicar entre si, cada qual em seu registro. Por isso, para quem não quer ver o galego como a mesma língua que o português, o que não pode negar é que saber galego é tão válido internacionalmente como saber português.

- Que a Galiza não é um caso único no mundo. Toda a Europa está plagada de casos semelhantes, línguas que tiveram de compartilhar espaços, guerras que foram mudando fronteiras não só política mas também linguísticas. E hoje, em outros países europeus, como Luxemburgo respétase essa variedade lingüística e foméntase que as línguas históricas não só não se percam, senão que sejam hegemônicas nas sociedades que as criaram.


Por isso, quando eu vi no Ecolíngua 2009 'O caso do Luxemburgo', entendín muitas das coisas que me aconteceram naquela entrevista do EIB em 2003:

Ecolingua 2009: O caso do Luxemburgo em Igea on Vimeo.


Quem tem tempo de ouvir esta palestra de Edelmiro Momam sobre a realidade lingüística do Luxemburgo, conhecer a situação que já vos adiantei em parte da convivência de 3 línguas oficiais (francês, luxemburguês e alemão) e 2 muito usadas em diversos ambientes (inglês na banca internacional, português na imigração). Mas, talvez mais importante ainda, a partir do minuto 22:50 fala de como se aborda no ensino desta situação de 5 línguas utilizadas socialmente.

Pensem como algums vil.lingües estão jogando contra o ensino em galego em uma sociedade de 2 línguas, e agora observem como resolvem no Luxemburgo um ensino em 4 línguas:

- Um aluno ao final do bacherelato para obter o título tem de demonstrar competência plena em 4 línguas: luxemburguês, francês, a norma internacional do luxemburguês (isto é, em alemão) eo inglês. Seria o mesmo que exigir a todos os jovens galegos que para terminar o ensino obrigatório têm de ser competentes em galego, espanhol, a norma internacional do galego (ou seja, o português) eo inglês.

- Como se consegue isso? As crianças da primária iniciam os seus estudos com vários anos de imersão lingüística na língua própria do país, o luxemburguês (o galego), porque é "a linguagem do coração". O ensino do alemão (português) eo francês (espanhol) já estão presentes no ensino desde muito cedo, mas dentro de uma imersão linguística em luxemburguês (galego). Depois continua com imersão lingüística em alemão (português) desde o final da primária aos primeiros cursos de ensino médio. Progressivamente se vão introduzindo o francês (espanhol) e inglês, até que nos próximos anos do ensino médio se procede a vários cursos de imersão linguística em francês (espanhol).

Desta forma, os alunos terminam os seus estudos perfeitamente competentes em pelo menos 4 línguas, e a sociedade luxemburguesa é perfeitamente cuatrilíngüe. E a isso é preciso somar a população que tem o português ou outras línguas como própria.

Funciona esse modelo?

No próximo capítulo contarei por qué eu sei que sim.